(via refetuada)

*O Retorno da Argentina:*


I


Após seis longos meses em terras Hermanas, tomei a corajosa decisão de voltar ao meu país, o Brasil. Em meio a uma vida hedonista, despreocupado com as responsabilidades e vivendo “carpe diem quam minimum credula postero”. Eu me misturava em meio aos cordobeses, tentando esquecer a dura realidade de abandonar um curso de Direito nos últimos períodos, a incerteza de investir em uma nova graduação, a frustração causada a minha família, o medo de falhar e me envergonhar cada vez mais, além de evitar a realidade socialista e violenta de minha cidade natal, O Recife.


Isso funcionou por pouco tempo. No fundo eu sabia que tudo aquilo era temporário. Em uma manhã de domingo, ao caminhar pelo Parque Sarmiento, apreciando o verde fosco das longas árvores, o lago negro e tranquilo, o sol tímido e um frio agradável típico do outono, encontrei um casal de idosos que alimentavam algumas “palomas” (pombos, em português).


- Dia lindo, hein, rapaz? – afirmou a senhora, enquanto ajeitava seu cachecol marrom, pomposo e elegante.


- Sim. Adoro os dias de outono! – exclamei com um sorriso tímido no rosto.


Nesse momento, os dois olharam para mim com uma feição curiosa. Eles perceberam que eu não falava espanhol e logo perguntaram:


- De onde você é?


- Sou do Brasil, de uma cidade mais ao norte, chamada Recife.


- Que lindo! Deve ser maravilhosa sua cidade! E o que fazes aqui? Em um lugar tão distante e diferente?


- Eu vim fazer um intercâmbio voluntário, mas me apaixonei pela cidade e decidi ficar aqui por mais tempo.


Nesse momento, o senhor deu um longo sorriso e me ofereceu restos de pães para alimentar as “palomas” com eles. Depois de algum tempo em silêncio ele disse:


- Che! Quando eu era jovem, achava Córdoba a pior cidade do mundo! Meu sonho era estudar arquitetura na Grécia. Eu revendi jornais e flores com o intuito de juntar dinheiro e realizar esse sonho. Depois de alguns anos, peguei o que havia juntado, embarquei em um navio italiano e cheguei no Porto de Piraeus (Atenas). Aluguei um albergue, comecei os estudos e, após 5 anos, recebi o tão sonhado diploma. Nesse momento, eu poderia ter continuado a morar na Grécia ou qualquer outro país europeu, oportunidades não faltavam. Mas optei por retornar a minha Argentina. Voltei mais maduro. Conheci a Eugenia, minha esposa, casamos e tivemos 3 filhos. Fui contratado pela Arch Daily e projetei as principais obras arquitetônicas desta cidade, inclusive este parque, o qual você se encontra tão enamorado. Por mais atraente que outro lugar possa parecer, jamais esqueça de onde você veio, meu jovem, e o quanto suas ações podem transformar e impactar a realidade de seus conterrâneos. Espero que um dia, você, como eu, possa se sentar em uma praça e se orgulhar de tudo que fez e ajudou a construir. Haja sempre virtuosamente.


Essas palavras me surpreenderam. Naquele momento, eu não havia percebido o quão importante elas teriam sido para os próximos capítulos de minha vida. Agradeci pela conversa prazerosa e caminhei de volta para casa.


II


Ao chegar em casa, aqueci um pouco de água, preparei um “mate”(chá argentino) e parei para refletir. Lembrei-me de minha família e amigos. Lembrei-me da minha avó, de idade tão avançada, que todos os dias dizia-me do quanto a saudade apertava-lhe o peito. Ela tinha medo de não me ver mais nesta vida, eu sentia isso. Lembrei-me de meu irmão, cada dia maior, cada dia mais homem, e eu tão distante, no momento em que ele mais precisa de mim. Lembrei-me do ENEM, dos meus sonhos deixados de lado, de tantas responsabilidades que eu me neguei a ver.


Atônito, terminei o último gole de “mate”, mandei uma mensagem para Carlos, meu grande amigo de intercâmbio, e decidi: era hora de voltar para o Brasil. Eu era um novo homem, deixei a coragem de evoluir com as responsabilidades suprimir a covardia de fugir das dificuldades. E foi assim que comprei as passagens de volta, com esperança de refazer-me feliz onde eu nasci.


Foram seis horas de voo, direto, sem escalas. Cheguei de surpresa em Recife, nem eu acreditava. Solicitei um 99pop e do aeroporto fui direto para casa. Eram 21h do dia 10 de maio de 2019. O céu estava limpo e o clima agradável. Como era bom voltar para casa. Em frente à porta do apartamento, toquei a campainha. Meu pai abriu.


- OXE!! Matheus? Mãe, olha quem chegou! Ana, Rafael, venham ver!!


Eu olhava a ria da cara surpresa de todos eles. Foi um sentimento bom. Minha mãe e meu irmão choraram. Minha avó vibrava de alegria. Eu estava em casa. Eu estava feliz.



*A Instalação do Tinder e o Match:*


I


Nos primeiros dias de volta à Recife, decidi baixar o tinder e dar uma chance ao amor. Sempre tive o otimismo de que o tinder poderia trazer alguém legal, bastava ter paciência. Todos os dias um batalhão de fotos para serem enquadradas em likes, dislikes e superlikes.


- Nossa, que menina interessante, graciosa e formidável. Fotos bem elaboradas, estilo modelo profissional, seios fartos e maravilhosos, que baby lindo! Um ar “cult” em suas expressões. Vou dar like. Vamos ver no que dá.


Instantaneamente, MATCH! No momento, guardei o celular e pensei – amanhã escrevo algo, se não ela pensará que estou desesperado – e assim o fiz. Porém, o que me surpreendeu foi que no outro dia eu havia recebido uma mensagem dessa menina, contendo o número de whatsapp e pedindo para eu falar com ela por lá.


- Uau! Ela deve ser muito experiente em tinder. Já chegou mandando a real e dando o número. Só vai querer usar o meu corpo, me iludir e depois me descartar, como normalmente as mulheres fazem com os homens. Ela me enxerga apenas como um pinto grande e duro, um objeto para saciar seus desejos mais impuros. Mas tudo bem, o que posso fazer se é isso que a vida tem para me oferecer? Que eu aprenda algo, pelo menos.


No mesmo dia mandei uma mensagem, a resposta foi seca e sem muita emoção. Porém, a garota misteriosa foi se interessando pelos assuntos iscas que eu colocava para ela. A conversa se desenvolveu para patamares inimagináveis. Ligações, videochamadas, fotos, GIFs, áudios, percebia-se que o match foi de verdade, que tínhamos mais em comum do que podíamos imaginar.


II


Entre encontros e desencontros, surgiu um sentimento tão bom e puro que, por mais que tentassem, não podiam esconder. Eu vi nela uma menina incrível, que em meio a tantas dificuldades na vida, escolhia os caminhos mais difíceis e mais virtuosos para realizar seus sonhos. Ela era uma heroína, mas ainda não sabia. Ela tinha o poder da sabedoria cada vez mais forte dentro de si e, com isso, poderia transformar o mundo.


No primeiro encontro, além de beijar seus lábios doces e macios, tive a oportunidade de conhecer Passarolândia, o reinado onde ela cresceu. De paisagens ímpares e vegetação dominante, os cidadãos desse reino viviam de maneira peculiar. Tendo um gênes metade humano e metade pássaro, eles viviam enclausurados em pequenas gaiolas, humildes, sem vontade de voar. Porém, em uma dessas gaiolas vivia Passadnarix, a menina que me deu match no tinder. Por algum motivo, a gaiola de Passadnarix era aberta e ela podia praticar suas habilidades de voo, mesmo sendo desencorajada pelos Passarians (cidadãos de Passarolândia). Passadnarix não gostava de como os Passarians reprovavam sua vontade de voar e preferiam vê-la quieta na gaiola.


Todavia, o que Passadnarix não sabia é que essa acomodação dos Passarians era provocada por uma doença chamada Socialismus Comunistus, causada pelo vilão mais temido, o Governus. Quando pequena, a mãe de Passadnarix, Dona Passabirix, protegeu-a dessa doença, guardando-a na grande fortaleza do Livro Liberalus, inimigo do Governus.


O Governus criou muitas dificuldades para destruir Passadnarix, as quais potencializavam seu poder de sabedoria e sua capacidade de voar. O poder de Passadnarix é a chave de libertação dos Passarians, para que possam voltar a voar e derrotar o poderoso Governus. No futuro, Passadnarix será admirada, prestigiada e transformará Passarolândia no Fantástico Mundo dos Passarinhos.


Impossível não se apaixonar por Passadnarix. Ela me faz muito feliz e essa história continuará a ser escrita…

*FLOR DE MAIO*


I


Era mais um dia de outono. As árvores secas, o vento gélido e o sol tímido caracterizavam o começo daquele primeiro dia de maio. Minha mãe me acordara para tomar o café-da-manhã em família. Eu estava visivelmente abalado.


- Bom dia, mãe!

- Bom dia, filho! Quer um café para ajudar a despertar? – ela sorriu desconfiada.

- Sim, por favor! Sem açúcar e bem forte!


Enquanto apreciava aquele sabor amargo e deixava a cafeína aguçar meus sentidos, lembrei-me de minha rotina há um ano. Como mudara! Era estagiário de um dos melhores escritórios de advocacia empresarial da região e estudava na melhor Faculdade de Direito. Eu tinha uma carreira promissora. Entretanto, após viver desilusões na profissão, tomei a difícil decisão (quiçá louca) de abandonar tudo e começar do zero. E lá estava eu naquela manhã, um vestibulando, sonhando com um novo começo: a Faculdade de Medicina.


Após a refeição, banhei-me, organizei a mesa com livros e comecei a estudar. Eu sabia que não seria fácil, afinal as notas de medicina são altas e exigem um conhecimento profundo dos assuntos. A incerteza da aprovação me atormentava. O que dizer para minha família se não fosse aprovado? O que fazer da minha vida aos 23 anos? Uma coisa era certa, se eu não passasse em Medicina, retomaria o curso de Direito e faria minha carreira na profissão.


Quando comecei a estudar, deparei-me com uma linda ilustração no livro de biologia. Era uma planta chamada flor de maio, a qual floresce durante o outono e tem origem na Mata Atlântica brasileira. Fiquei impressionado com a beleza de suas pétalas e a variedade de cores. Apesar de nunca ter sentido atração por flores, essa cativara meu coração e despertara meu desejo.


Dominado pela curiosidade de vê-la pessoalmente, decidi ir a uma floricultura localizada no Shopping Plaza, chamada Floribella. Ao chegar no local, comprei duas mudas de flor de maio com a intenção de cultivá-las em casa. Todavia, quando me preparava para sair da loja, uma menina entra violentamente, concentrada em seu celular e esbarra em mim, derrubando todos os livros que carregava em suas mãos.


- Desculpa, moço! Juro que não lhe vi!


Ao escutar aquela voz doce e macia adentrar os meus ouvidos, imediatamente virei os olhos para garota. Ela era formidável. Seu olhar era tão gentil que me deixava à vontade para admirá-la sem me envergonhar. Seu sorriso me abraçava e aquecia a alma. Seu corpo esbanjava lindas curvas, às quais me enlaçavam em uma jornada sem fim.


- Moço? Está tudo bem?

- Sim! Claro! Não se preocupe.


Ela sorriu, juntou seus livros e continuou a caminhar. Eu já ia seguir meu caminho, quando decidi voltar a falar com ela.


- Perdão, qual seu nome?

-Lídia! – exclamou confiante.

- Ah! Que lindo! Era o nome da minha bisavó. É um prazer conhecer-te.

- E você? Como se chama?

- Matheus, mas pode me chamar de Mat.

- Haha! Lindo nome. Espero ver-te novamente.

- Seria ótimo! Qual seu telefone?

- 4304804270000000

- Perfeito! Escrevo-te mais tarde.


Após a breve conversa, continuei acompanhando os passos de Lídia pelo shopping, para admirar um pouco mais aquela garota que eu recém conhecera. Ela entrou numa livraria, quando, de repente, três homens a cercaram. Era possível ver que ela conhecia um deles, porém o clima da conversa não era amigável. Depois de alguns minutos, os quatro sumiram. Eu fiquei perplexo. Havia algo de errado. Aquela linda garota corria algum perigo e eu precisava salvá-la.


*CONTINUA*

caotizado:

“Mas ninguém sabe quando será o último abraço então por precaução (ou sensatez) abrace sempre como se fosse a última vez.”

Jean Carlo Barusso. 

(via aprendizdepoeta)

adoidecer:

“Eu pude ver flores em um lugar onde só havia arame farpado.”

Augusto Cury.

(via pensamentos-antigos)

transitou:

“Melhor queimar de uma vez, do que apagar aos poucos.”

Kurt Cobain. 

(via pensamentos-antigos)